Brincamos ao faz-de-conta porque isso nos deixa sossegados.

Na cama, dormimos com as certezas que nos fazem ser homens e mulheres de bem.
Mas quando a janela se abre somos para o mundo mais alguém, sôfrego por se preencher.

Sempre que brincamos ao faz-de-conta magoamos alguém. Alguém. Porque há sempre alguém enganado neste faz-de-conta que somos amigos, faz-de-conta que somos felizes, faz-de-conta que te amo, faz-de-conta que não existem problemas, faz-de-conta que ninguém nos mente, faz-de-conta que me dedico, faz-de-conta que sei o que quero, faz-de-conta.

Ninguém nos explicou as regras mas todos sabemos jogar: inventamos um carisma, desculpamos-nos com um feitio especial, ou dizemos-nos demasiado ingénuos para assim escapar à responsabilidade.

Até nisso fazemos de conta.

No final de contas andamos simplesmente à procura de alguém que seja melhor que nós a jogar ao faz-de-conta, e, tornamo-nos assim nos próximos a ser enganados.